domingo, 24 de abril de 2011

Caio, simplesmente Caio

PEQUENAS EPIFANIAS

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida’:
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
O Estado de S. Paulo, 22/4/1986
Caio Fernando Abreu 


terça-feira, 19 de abril de 2011

Você chegou na hora certa, no momento propício. Era tudo aquilo que eu desejava no momento. Você sorriu da maneira certeira, me olhou de um jeito sensato e me fez jogar-se em seus braços, sem pensar duas vezes.
    Aquela camisa branca , lhe deixou muito mais atraente. Aquele cheiro peculiar me deixou confusa. Você talvez poderia ser, dessa vez o cara certo. No entanto eu não consigo lhe dar o amor que você merece , e isso é triste. Dessa vez eu sou a pessoa errada.
    Ah, quando será que eu vou me desprender de quem não mais quer existir pra mim? Parece que nunca. O tempo passa, voa e eu continuo parada no tempo, esperando que tudo passe.

Monique D'Angelo

segunda-feira, 18 de abril de 2011



Mulher mais adorada!
Agora que não estás,
deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.
E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.
Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.
Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres -
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo.

Vinícius de Moraes

Queixumes

Fui na linha do horizonte
Pra entender o teu gosto
Pecorri vales e montes
No espelho do seu rosto
Mas estavas tão distante
Que o sol tinha se posto
E as estrelas não brilharam
Traduzindo o meu desgosto
Será que você não percebe
Que o tempo vôa e voará
Será que esse orgulho
Reflete mais que o luar, mais que o luar
Por você não sei dizer
Por mim não posso calar
Nem sempre o "x" do querer
Está na palavra amar
E sim no jeito de ser
No que se tem para dar
Se não lhe faço entender
Meus queixumes vão falar.
Anchieta Dali

domingo, 17 de abril de 2011

Sonhei que você sonhava comigo. Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo.


Caio Fernando Abreu 

Fim de Tarde

        Saio de casa , depois de tomar um belo banho e comer algo.Chego no ponto de ônibus, cumprimento as pessoas e procuro meu lugar próximo a janela.Coloco os fones no ouvido , ponho a mão no queixo e começo a observar o céu . Hoje particularmente , Deus resolveu deixar o céu encantador, com luzes multicores, ora azul,ora cor-de-rosa, ora lilás e um pôr do sol deslumbrante. Nunca vi o céu tão lindo, e ver tudo aquilo me fez viajar literalmente.
    Até o vento , estava diferente. Deixei que ele bagunçasse meus cabelos sem ao menos mover uma palha para fechar a janela,como é de costume . Aquele momento foi único, é como se o céu , o vento, aquela sensação de está bem mais próxima a natureza, entrasse no recôndito do meu ser e me transformasse, ainda que só por um instante.
   Às vezes quero provas grandes demais , para me convencer que Deus está em tudo e mais perto do que imagino. Aquilo foi simplesmente um show diante dos meus olhos. E me fez ter a certeza de que Ele estava por trás de tudo, me fazendo vislumbrar que está aqui, sendo capaz de me transformar em um simples fim de tarde.

Monique D'Angelo